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Os diários de Paula Lee

Ex-amante profissional. Autora do livro Alugo o meu corpo (D. Quixote).

Os diários de Paula Lee

Ex-amante profissional. Autora do livro Alugo o meu corpo (D. Quixote).

Talvez até breve - Apaguei os posts

Paula Lee, 29.10.21

Apaguei os posts. Coloquei desde o princípio o endereço de e-mail no fim de cada post que publiquei ao longo de um ano, porque estar no blogue nunca foi um projeto, era mesmo só uma satisfação, um desabafo e um reencontro, algo que se despertou e se motivou pela pandemia.

Sempre deixei claro que aqui eu só falava e só falo das MINHAS experiências, UNICAMENTE das minhas experiências. E de que de forma alguma, em hipótese alguma quero que as minhas experiências e que os meus relatos incentivem ou motivem alguém a entrar na prostituição.

Não estou mais nessa atividade que foi o meu ganha-pão não apenas por alguns meses, mas por anos, e hoje tenho uma vida radicalmente diferente daquela época. 

Não é fácil voltar ao passado, revisitar memórias, ainda mais assim quando ele é totalmente diferente da sua vida atual. Mas ter vindo aqui foi muito válido para mim, por ter encontrado antigos clientes-amigos e também antigos leitores do antigo blogue. 

Mas nesse período - e inclusive mais neste ano do que no ano passado - tive notícias de gente que não está mais aqui, que partiu com a pandemia para outro Plano.

Eu não sei quanto a vocês, não sei como se colocam na vida, o que pensam sobre o que é estar AQUI E AGORA. Não sei se em alguns de vocês que me lêem talvez sobressaia a arrogância de acreditar que nessa vida alguém é melhor que alguém. Porque não é não. Somos todos feitos da mesma matéria e somos todos filhos do mesmo Pai. 

Entristece-me saber da partida de colegas e de ex-clientes que, mesmo não tendo feito parte da minha vida num plano mais pessoal, fizeram parte dessa fase. De alguma forma, partilhamos e compartilhamos um pedaço da vida juntos.

Não que "o mundo aqui fora" seja muito diferente disso, mas eu acabava por notar o quanto era feroz o incentivo à competição dentro do submundo do sexo. De muitas colegas que só viam às outras como concorrentes, e uma guerra até entre clientes e prostitutas, como se um tivesse que diminuir o outro e criar um afastamento. "Ela é só uma puta, o cliente é só um multibanco."

Eu fiz totalmente o contrário. Óbvio que não em todas as situações, porque em muitas delas também tive que me defender ou me afastar. Mas se for para falar da maioria dos casos, tive sim um relacionamento bastante pacífico, colaborativo e agradável com a maior parte das colegas e clientes.

A gente só dá aquilo que tem. Porque da mesma forma que quem dá o seu melhor é porque era isso que tinha para dar, quem dá o seu pior é também porque era tudo o que tinha para dar.

Podia ter me transformado numa pessoa amarga, rancorosa e sem esperança na vida? Podia sim. Mas Deus não deixou. Não quero aqui incutir valores religiosos, este é só o meu caso, cada um com a sua própria fé. E o fato de eu ter sido prostituta um dia nunca me afastou Dele.

Tudo tem os dois lados, toda gente pode usar a mesma informação ou experiência para o bem ou para o mal. Eu podia ter usado a prostituição para o mal, ou podia ter me tornado uma pessoa má, devido a algumas más experiências. Mas eu vejo de outro modo: a prostituição me humanizou. As experiências que tive enquanto prostituta, não terei em nenhum outro cenário da vida. (Nem as boas, nem as más experiências)

Resolvi apagar os posts por causa da responsabilidade que é manter informações online e abertas sobre este tema. Eu não sei quem me lê. Não tenho como controlar isso. Não apenas em relação à idade, mas maturidade, experiência de vida, sensibilidade, até ter bom coração é um pré-requisito para conseguir me ler e ter uma compreensão mais profunda, livre de preconceitos e pré-julgamentos. Quantas pedras tinha nas mãos quando chegou aqui?

Uma coisa era quando eu estava na atividade, todos os dias, dia após dia, e tinha um número de telefone na minha página, e o meu dia-a-dia era aquilo praticamente 24 horas por dia. Outra coisa é agora, que tenho outra vida, que venho aqui esporadicamente e nem tenho como dar esta atenção toda que antes dava para quem me lia. 

Fora que também já tem muito tempo que não estou mais na atividade. E eu tenho a sensação de que tudo hoje está muito pior do que era naquela altura. Mudou a comunicação, mudaram as redes sociais, mudou a forma de as pessoas se relacionarem. "No meu tempo" não havia haters, e nem essa violência toda online, as pessoas já entram em debates com sangue nos olhos e passam horas na internet tentando destruir ao outro com palavras. (Por isso que de redes sociais pouco participo; podem perceber que até no Twitter eu praticamente só posto os links para os novos posts... Ah, eu nessa altura da minha vida tudo o que quero é ter paz).

Já duas pessoas questionaram se a Paula Lee existiu, se esse blogue talvez não seja todo inventado. De certo modo, me sinto lisonjeada. Devia me sentir ofendida?

Ah, é engraçado. Porque quando eu era puta, tudo o que queria era não parecer que era puta, era que as pessoas não percebessem que eu era puta! Agora eu venho aqui relembrar umas histórias, vem alguém bater o pé convictamente de que não fui puta coisa alguma, que estou inventando conversa. Haha, adorei! (Juro que não é cinismo, adorei realmente, meu sonhooooo!)

Claro que tenho milhares (milhares é exagero, mas algumas dezenas com certeza!) de formas de provar que eu era realmente puta, que eu realmente existi nesse cenário, que realmente atendi clientes não por meses, mas por anos. Mas acham lá que eu faria esse esforço??? Por que eu faria isso???

Estou é imensamente feliz por ter gente que acredita que eu nunca fui puta, o sonho da minha vida era justamente esse, deixar a atividade e ninguém desconfiar que fui puta um dia!

Zerei a vida! Tudo o que quero é justamente nem me lembrar que há imensas provas de que fui puta, rsrs. (E aliás, se mantenho ainda tanta discrição, é porque é um direito meu não querer que as pessoas saibam. Se não queria que soubessem nem antes, quando eu trabalhava com isso, imagina agora, que não ganho um único cêntimo alugando o corpinho? Vocês acham que eu venho aqui escrever no blogue quando está toda a gente em casa? Por que não posso mais vir diariamente como antes, e nunca me comprometi a vir aqui postar com frequência?)

Não creio que seja o fato de eu já não estar na atividade há anos que tenha mudado a minha comunicação, a fazer com que agora não me reconheçam como puta, quer dizer, ex-puta, não é o que chamam quem deixou de trabalhar na área? Porque antes a minha comunicação já era assim também, lá no antigo blogue, a diferença é que lá eu contava também dos atendimentos, e hoje, claro, como não estou mais na atividade, não tenho como fazer o mesmo, aí sim eu estaria a inventar!

Mas pelo que andei a ver, muita coisa mudou de lá para cá, até o tipo de fotografia, a forma com que a acompanhante aborda o cliente no seu anúncio ou publicidade; o que se vê hoje realmente não é quase nada parecido com a forma que a gente se divulgava "na minha época", talvez por isso seja natural sim, principalmente por quem é hoje do setor, questionar se um dia fui. 

Como eu dizia: tem uma responsabilidade deixar certos conteúdos no ar.

Eu sei que tem muita gente que é desconfiada. Fico a me perguntar o que fizeram com muitos de vocês nesses últimos tempos. Refiro-me ao que vejo nas redes. Sobre o quanto são desconfiados. Sobre o quanto só esperam o pior do outro. Não, eu não estou a apagar os posts para depois vendê-los em formato de livro ou de curso, podem ficar à vontade para copiá-los ou guardá-los, esses textos que publiquei aqui continuarão livres e gratuitos, só não continuarão públicos por tanto tempo como antes porque .simplesmente não sei como é a cabeça de quem me lê.

Não sei o que a pessoa vai fazer com a informação que dou. Não faço a mínima ideia dos processos emocionais ou psíquicos que uma pessoa está a passar quando chega num blogue como este e o que é que cada informação ou conclusão poderá despertar nela.

Não sei se é o fim. Talvez não. Mesmo se não for, decidi que deixarei no máximo alguns poucos posts publicados, e apagarei outros.

Sei muito bem que isso me prejudica em termos de algoritmo e de motores de busca. Mas lembram que não estou mais na atividade? Lembram que não uso mais o blogue e nem o site para ter clientes? Então posso fazer isso sim, sou totalmente livre para isso, nem quero me tornar prisioneira do algoritmo e das redes.

Sei que este meu comportamento também vai totalmente contra o padrão atual, das pessoas que querem ficar famosas, das pessoas que querem mais seguidores. Cada um sabe o que é melhor para si, não é?

E para mim, o melhor de tudo, é ter paz. Se a paz para mim for esporadicamente vir aqui trazer um post ou outro quando tiver vontade de desabafar, o farei. Se a paz para mim for apagar os posts de uma hora para a outra, o farei. 

As pessoas não estão acostumadas com isso, eu sei. Se alguém te disser que prefere ter uma bicicleta do que uma Ferrari, aposto que riria. Mas foi neste nível de maturidade que cheguei: passei tanto tempo a trabalhar pelo dinheiro, para no final de tudo descobrir que o dinheiro era o que menos importava.

Não, não estou aqui a inventar histórias. Não fazem a mínima ideia de como é a minha vida hoje. Em momento algum neste último ano contei como é a minha vida hoje, apenas disse hoje que é radicalmente diferente do que era quando eu estava na prostituição.

Sim, hoje eu tenho outros valores. O que não quer dizer que eu tenha virado santa, ou que seja melhor ou pior que alguém por causa disso. São só valores diferentes, aprendizagens diferentes, coisas que fazem sentido para mim mas que talvez não façam sentido para ti, mas está tudo bem, cada qual com a sua aprendizagem.

Hoje eu sou livre para preferir a bicicleta, se quiser, se sentir que ela que me fará mais feliz. Para o mundo de hoje, isso é uma escolha realmente estranha, até bem mais estranha do que alguém de repente virar prostituta. Virar prostituta é normal, agora alguém preferir uma bicicleta a uma Ferrari, isso sim deixa as pessoas realmente estupefactas. 

Ah!

Ah!

Ah!

A pandemia não vos ensinou nada?

Ok, não vamos falar sobre isso. Como disse, cada um com as suas aprendizagens.

E cada um com as suas escolhas também.

Eu escolhi ser livre.

Livre até das redes e das regras das redes.

Então em breve apago. E se der vontade, reescrevo. Se um dia eu tb quiser escrever algum texto para vender, eu escrevo. Eu posso, se quiser. Mas sinceramente, também já não tenho mais essa vaidade. 

Quando publiquei o meu livro, foi um sonho. Foi uma grande emoção ir às livrarias e encontrar o meu livro em todas elas, muita gente teve a oportunidade de acompanhar essa emoção comigo na altura, tinha cliente que vinha com o livro na mão, me comia e ainda pedia autógrafo, era engraçado.

Engraçado e um pouco incómodo também, na verdade; eu era uma autora comível. Todas as garotas de programa que lançavam livros na mesma época já eram ex-garotas de programa, eu era a única garota de programa que lançava livro mas que se mantinha na atividade, isso me tirou um pouco da emoção de poder ser apenas autora, de não ser tão acessível. 

Mas foi bom sim, eu vivi a minha emoção de ter um livro nas principais livrarias, sou grata. Só que este já não é um sonho mais, já foi. Com o tempo, alguns dos nossos sonhos também mudam.

Temos que estar amarrados para sempre ao que já fomos um dia? Porque um dia fui prostituta, quer dizer que tenho que ser prostituta o resto da vida, mesmo fora da profissão? Se o dinheiro antes era um valor importante para mim, este tem que ser um valor importante pelo resto da minha vida? Terei que ser tudo aquilo que acham de mim e me limitar àquilo que pensam que tenho que ser, mesmo quando já sou outra coisa? 

Pensem nisso, quando olharem em volta. Talvez o que precisam seja apenas de um olhar com um pouco mais de ternura.

Beijos e até breve talvez.